

A Associação dos Delegados de Polícia Civil do Rio Grande do Norte – ADEPOL/RN se orgulha em ter em seus quadros uma mulher de fibra como Delegada Sheila Freitas, uma profissional competente e reconhecida pela imprensa potiguar.
Nesta reportagem, feita pela equipe do Novo Jornal, a delegada fala da carreira dentro da polícia civil, as dificuldades enfrentadas e o sucesso alcançado nas investigações.
A mais recente foi a prisão dos quatro acusados de assaltar e estuprar um grupo de funcionários de um supermercado de Natal, no mês de dezembro de 2009, quando eles participavam da confraternização de final de ano, em uma granja em São Gonçalo do Amarante/RN.
A Delegada Sheila Freitas, titular Delegacia de Furtos e Roubos - DEFUR, faz um resumo do dia a dia da profissão marcado pelo esforço, pela falta de estrutura e condições de trabalho, pelas perseguições e também pelo reconhecimento. A carreira da delegada é semelhante a de dezenas de outros profissionais que enfrentam a rotina de trabalhar na Polícia Civil do Rio Grande do Norte. Por causa disso o site da ADEPOL publica na integra a reportagem publicada na edição do dia 31 de janeiro de 2010. Veja a seguir:
Perfil – Delegada Sheila Freitas, titular da Defur, admite que faz parte da “linha dura” da polícia Meu nome é Sheila, com “i” Texto: Anderson Barbosa Fotos: Augusto Ratis
Ela estava sentada em seu gabinete planejando mais uma operação policial. Na sala ao lado, um dos seus agentes lhe chama a atenção, quebra a concentração e avisa: “Delegada, tem um cara aqui no telefone dizendo que vai matar a senhora”. Ela olha com desdém para o policial, abre um sorriso maroto e, como se mirasse uma pistola ponto 40 no círculo vermelho de um alvo, dispara de punho cerrado: “diga a ele que entre na fila”.
É assim mesmo, com 10 anos de experiência, sem fazer corpo mole frente aos bandidos, e com muita coragem para prosseguir com uma das carreiras mais perigosas do país, que age e pensa a delegada Sheila Maria Freitas de Souza, de 44 anos de idade.
Titular da Delegacia Especializada em Furtos e Roubos (DEFUR) desde o dia 11 de março do ano passado, Sheila Freitas, como gosta de ser chamada, ganhou notoriedade ao longo das últimas semanas e entrou para o rol dos policiais mais prestigiados do Rio Grande do Norte. Quando a coisa complica, o telefone da delegada toca. “Meu nome é Sheila, com i, e não com y”, avisa logo na entrada.
Em função de ser responsável por uma das operações bem sucedidas da polícia, ao conseguir recentemente a identificação dos membros de uma quadrilha que aterrorizava, assaltava e estuprava mulheres no município de São Gonçalo do Amarante, o NOVO JORNAL procurou a delegada. Em entrevista exclusiva sobre sua iniciação policial, apreço ao ofício e desencantos com a segurança pública, ela foi bem clara ao responder, sem qualquer arrodeio, sobre o que acha de ser tratada como um ‘delegada linha dura’.
“Quer saber de uma coisa? Eu me acho linha dura, sim. Não sou de alisar, paparicar ou bajular as pessoas. Respeito a todos, mas não sou obrigada a gostar de ninguém”, disparou. E prosseguiu com um breve relato sobre como ingressou na Academia de Polícia.
“Primeiro, muito jovem, me formei pelo antigo Cefet (hoje IFRN) no curso técnico de Geologia, atuando na área por 13 anos”, revelou. “Depois, cursei direito pela UFRN e me tornei advogada. Isso foi em 2000. E logo prestei meu primeiro concurso para a polícia. Foi engraçado porque, sinceramente, não esperava passar. Como toda jovem que acaba de se formar, eu fiz a prova apenas para me testar. E deu certo”, complementou a delegada, sorrindo.
O início Sheila Freitas seguiu com a história. Disse que sua primeira função na Polícia Civil, naquele mesmo ano, foi assumir o cargo de delegada adjunta da delegacia que hoje ela própria comanda. “Naquela época, a DEFUR funcionava na Zona Norte.
Lembro que o delegado era Alexandre Coutinho, que me apoiou muito. Éramos quatro delegados e dois adjuntos, fora os agentes. E para se ter uma ideia de como as coisas mudaram, a DEFUR agora fica no bairro da Cidade da Esperança. Funciona com apenas dois delegados, um chefe de investigação e 17 agentes”, contou. Na DEFUR Sheila Freitas passou dois anos.
Em 2002 assumiu, desta vez como titular, o 11º Distrito Policial, na Cidade Satélite. Lá, ela ficou pouco tempo. Já no ano seguinte, voltou a ser adjunta e foi trabalhar nas delegacias especializadas em Assistência ao Turista e Meio Ambiente (DEATUR/DEPREMA). “A experiência foi maravilhosa, pois conseguimos mostrar que os policiais que atuam na área do turismo não estão ali apenas para pegar sol e ficar na praia. Se trabalha, e muito. E isso nós fizemos”, afirmou.
A decepção, No entanto, quando a carreira da delegada seguia de vento em polpa, entre os anos de 2005 e 2006 – já bastante familiarizada com a profissão e cada vez mais apaixonada pela carreira – revela ter passado o momento mais difícil de sua vida. “Foi uma época de muita decepção. Fiquei triste mesmo, porque fui praticamente obrigada a abandonar o que mais gostava de fazer e fiquei um ano e quatro meses afastada da polícia”, admitiu.
Segundo a delegada, o motivo de sua licença foi incompatibilidade de trabalho com o então secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Glauberto Bezerra. E explicou: “Para ser bem curta, ele queria interferir no meu trabalho. Então eu disse a ele que fosse fazer concurso para delegado. Só assim ele poderia me ensinar”, desabafou.
Após o longo período, como castigo, fazendo apenas serviços administrativos, Sheila deu a volta por cima e, assim que Glauberto deixou o cargo, foi convidada para sua primeira missão fora da capital. Em 2007 viajou para a região Oeste potiguar e assumiu a Delegacia de Polícia de Caraúbas.
A cidade ficou conhecida em todo o estado como terra natal de um dos bandidos mais perigosos do Rio Grande do Norte. “Eu sou natural de Campo Grande, cidade vizinha a Caraúbas, e conheço muito bem a região. Sei que foi lá que nasceu e viveu Valdetário Benevides Carneiro. E é claro que eu sabia de sua história. Um fato que até hoje mexe com as pessoas de lá. Mas eu estava preparada para o desafio”, disse Sheila.
A volta por cima E foi em Caraúbas que a delegada Sheila Freitas começou a mostrar para o que veio. A partir do roubo a um alternativo, no município de Triunfo Potiguar, veículo que levava caraubenses para a cidade pernambucana de Caruarú, ela conseguiu desbaratar uma grande quadrilha de assaltantes. Ao longo de cinco meses de investigação, Sheila pôs as mãos em 28 bandidos e desarticulou a rede criminosa remanescente de Valdetário. “Foi um trabalho que na época teve pouca repercussão. Mas, para mim, pela quantidade de pessoas que tiramos de circulação, valeu o sofrimento de ter ficado tanto tempo longe da adrenalina”, considerou. Depois desse, a delegada também destacou o trabalho investigativo para elucidar o duplo homicídio ocorrido na cidade serrana de Martins. A morte dos namorados Deyff Kennedy Alves da Silva, 22 anos, e Sanelle Lauane de Lima e Silva, de 17, executados com tiros de pistola na cabeça, chocou a região.
No final de dezembro de 2008, a delegada chegou a um consenso sobre a autoria dos assassinatos, ocorridos no dia 14 daquele mês, e autuou como prováveis assassino e cúmplice, os policiais militares Haroldo Oliveira da Silva (soldado), 32 anos, e um cabo identificado apenas como Giliard, ambos do Grupo Tático de Combate (GTC) da Polícia Militar. O primeiro permanece preso no 10º Batalhão da PM, em Assu. “Foi um trabalho que me envolveu completamente. E também muito gratificante em poder dar a resposta que a sociedade esperava, identificando os culpados pelo crime”, lembrou.
Então, no dia 11 de março de 2009, já em Natal, a pedido do delegado geral de Polícia Civil Elias Nobre de Almeida Neto, foi publicado no Diário Oficial do Estado o nome de Sheila Freitas como delegada titular da DEFUR, assumindo o posto no lugar do delegado Márcio Delgado, que foi transferido para o 11º DP. “Nunca fui rotulada de sexo frágil” Além de relatar o início de sua carreira e algumas ações que ela recorda como significantes para o seu progresso na Polícia Civil, a delegada Sheila Freitas respondeu a alguns questionamentos do NOVO JORNAL.
Com o coração desarmado, ela emocionou-se ao falar um pouco sobre a situação da segurança pública no Rio Grande do Norte, de sua paixão pela polícia, das barreiras que a justiça impõem à polícia e de como é ser mulher num ambiente de maioria masculina. Por fim, destacou dois delegados como os grandes responsáveis pelo seu sucesso atual: Maurílio Pinto de Medeiros, hoje titular da Delegacia Especializada em Capturas e Polinter (DECAP), e o próprio delegado geral Elias Nobre.
NOVO JORNAL – Em algum momento, o fato de ser mulher atrapalhou a sua carreira? E existe algum preconceito ou discriminação quanto a isso?
Sheila Freitas – De maneira alguma. Pelo contrário. Nunca sofri qualquer preconceito ou fui rotulada de sexo frágil. Sou mulher e sou competente. Como respeito a todos, sempre fui respeitada. Meu trabalho mostra isso.
NOVO JORNAL – O que é preciso mudar na segurança pública?
Sheila Freitas – Muita coisa. Falta mais investimento e reconhecimento aos profissionais.
No governo Garibaldi, por exemplo, não tínhamos equipamentos, armamentos, praticamente toda a polícia estava sucateada. Hoje, melhorou bastante, mas muito ainda pode e precisa ser feito. Para se ter um bom policial, é preciso investir no policial. Na minha primeira diligência, os policiais riram de mim porque usei um revólver calibre 38. Hoje, a polícia dispõe de pistolas ponto 40. É muita diferença. Com o secretário Cláudio Santos houve uma revitalidade na polícia. Com o atual, Agripino Neto, eu tive carta branca para realizar meu trabalho. Ganhamos mais dinamismo e o serviço de inteligência foi priorizado. Já sobre o próximo secretário, se for o desembargador Cristóvam Praxedes, espero continuidade e desejo sucesso. E pode escrever: quando a polícia tiver todas as condições de trabalho e mais suporte administrativo, a população será a grande recompensada. Sem falar em recursos e mais capacitação para os agentes, delegados e escrivães. Todos nós precisamos de reciclagem e aperfeiçoamento profissional.
NOVO JORNAL – A Justiça atrapalha o trabalho da polícia?
Sheila Freitas – Eu não diria que atrapalha, mas bem que poderia ser mais parceira. O caso dos assaltantes e estupradores de São Gonçalo é um exemplo. Coloquei minha carreira em risco por causa da morosidade. Solicitei os mandados de prisão no início do mês. Praticamente duas semanas depois, quando já havíamos prendidos os acusados e um deles já estava morto, foi que a juíza mandou deixar em minha sala o mandado de prisão provisória, justamente do que se suicidou. Foi por risco e conta minha aquela operação. Mas, graças a Deus deu tudo certo.
NOVO JORNAL – Quando a coisa fica ruim, é só chamar a delegada Sheila Freitas que ela dá um jeito?
Sheila Freitas – Claro que não é assim. O delegado geral Elias Nobre confia no meu trabalho e eu sou muito grata por isso. Acredito que ele sabe do meu potencial e por isso sempre pede a nossa colaboração. Mas eu não trabalho sozinha. Temos o delegado Atanásio Gomes, o chefe de investigação Marcos Castro, três escrivães e 18 agentes que são responsáveis pelo sucesso da delegacia tanto quanto eu. Todos estão de parabéns. E outros profissionais, de outras delegacias, também merecem os aplausos.
NOVO JORNAL - Quem são os policiais que lhe motivaram e lhe inspiraram na polícia?
Sheila Freitas – Com certeza o delegado Maurílio Pinto é a figura mais expressiva da nossa polícia. Um homem que tem a vida inteira dedicada ao que faz. Um ser humano exemplar, mas que, infelizmente, não recebe todo o reconhecimento que merece. Outro que tenho como exemplo é o delegado geral Elias Nobre. Um excelente profissional. A quem eu devo quase tudo que conquistei. Uma pessoa digna e que acredita no meu trabalho. E mando um beijo pra minha mãe também. Ela é a pessoa que mais me exige disciplina. Pega tanto no meu pé que me cobra todos os dias. Ela me liga querendo saber se eu já consegui prender esse ou aquele bandido. E vibra quando a polícia faz um bom trabalho e ajuda a vivermos com um pouco mais de paz.
Fonte:
NOVO JORNAL, publicado no dia 31/01/2010.
Texto: Anderson Barbosa
Fotos: Augusto Ratis